Meu filho ainda não fala, e agora? Glayse Cristina Mangifeste S. Oliveira
em 06. out, 2008 por Equipe ECA em Artigos
Existe um grande número de crianças que mesmo sadias, ainda não falam, essa “demora” para falar, muitas vezes ocasiona, angústia nos pais. Assim, a fase de desenvolvimento da linguagem é um momento importante tanto para a criança quanto para sua família.
Os problemas de linguagem são, em sua grande maioria, relacionados a dois aspectos: psicológico e orgânico. De modo que, toda a discussão apresentada no desenvolvimento deste trabalho parte da compreensão do processo de linguagem.
Entretanto, a visão vigotskiana é utilizada como base para o entendimento do desenvolvimento da linguagem que se dá por meio da interação com o ambiente físico e social e com a utilização dos instrumentos e símbolos, num processo em que a criança vai se individualizando gradativamente.
Qual é a idade correta de uma criança falar? Algumas crianças apresentam uma “demora” para iniciar toda a sua tagarelice, porém, os pais ficam angustiados por não saber o que fazer, mas o que fazer?
Este trabalho surgiu a partir do caso Matheus, descrito abaixo, que traduz em síntese a demora de uma criança para falar.
Matheus é um garoto esperto, para falar a verdade é muito travesso. Não consegue ficar parado nem por um minuto, tudo ele pega, tudo ele quer, tudo ele mexe. Quando Matheus chega vira a atenção principal, a família inteira paparica, corre atrás, chama, grita e ele aproveita para bagunçar.
Apesar de muitos brinquedos nunca pára para pegar qualquer um deles, a não ser para quebrar. Carrinho nem pensar, não fica um inteiro. A única coisa com que ainda brinca é bola, isso ele gosta bastante, mas dura só uns dois dias. ..
Porém, ainda não fala. Poucas são as palavras que consegue dizer com clareza, ou seja, não que esteja completa mas dá para entender o que ele quer. Todavia, compreende tudo o que é dito à ele, quando perguntado consegue se explicar com gestos, sabe o nome de todos os familiares, mas não fala nenhum.
Algum tempo atrás foi ao médico para fazer uns exames e saber o motivo de não falar ainda, o resultado foi categórico: “está esbanjando saúde não fala porque não quer”.
Será que ele não quer mesmo ou tem motivos para não falar?
A fase de desenvolvimento da linguagem é, importante tanto para a criança quanto para sua família. Entretanto, existe um grande número de crianças que mesmo sadias, ainda não falam, o que provoca, geralmente, muita angústia nos pais. Apesar de comunicar-se muito bem não conseguem expressar-se verbalmente.
A compreensão da linguagem precede a compreensão da fala, como Matheus, a criança comunica-se com gestos, olhares e mímica antes de se expressar verbalmente. A criança pode compreender muitas palavras mesmo sem saber articulá-las. Todo ser humano precisa ter os órgãos sensoriais, motores e de articulação em perfeitas condições para desenvolver uma linguagem correta. Também é importante que esteja em interação social.
Para um bom desenvolvimento da linguagem, os fatores hereditários e o estado de saúde, também devem ser considerados, no caso, os médicos descartaram a hipótese de distúrbios como mudez, problemas de articulação, fonação, ritmo ou afasia.
Os problemas de linguagem são, em sua grande maioria, relacionados a dois aspectos: psicológico e orgânico.
De modo que, toda a discussão apresentada no desenvolvimento deste trabalho parte da compreensão do processo de linguagem.
Entretanto, a visão vigotskiana é utilizada como base para o entendimento do desenvolvimento da linguagem que se dá por meio da interação com o ambiente físico e social e com a utilização dos instrumentos e símbolos, num processo em que a criança vai se individualizando gradativamente.
Para Vigotski o pensamento e a linguagem são processos interdependentes e que ocorrem desde o nascimento. A maturação é um aspecto secundário, o raciocínio prático e a fala integram-se durante o processo de desenvolvimento.
A criança antes de controlar o próprio comportamento é capaz de controlar o ambiente através da fala. Como exemplo, poderia ser citado o caso de Matheus, já que ele apesar dos três anos, controla o ambiente sem falar.
A fala é tão importante quanto a própria ação, ambas fazem parte da mesma função psicológica e têm como objetivo resolver problemas, quanto mais complexa a ação, mais importante se torna a fala.
A fala permite que a criança tenha maior liberdade de ação, e que possa diminuir a impulsividade, espontaneidade, planejando as atividades, ou seja, se auto-regulando.
Além de facilitar a manipulação dos objetos, a fala também reorganiza o comportamento da criança, dando-lhe um formato humano, possibilitando que a criança oriente e controle as suas próprias ações sobre o meio.
Na visão de Vigotski o desenvolvimento parte da fala social, depois egocêntrica, e então interior. O desenvolvimento do pensamento vai do social para individual, demonstrando que a fala egocêntrica tem um interligação com a fala social, pois é verbalmente que a criança encontra soluções para as ações. Isso também pode ser observado quando a criança utiliza a linguagem para comunicar-se com o adulto, tendo a finalidade de solucionar o que não conseguiu sozinha. Assim no processo de desenvolvimento, a criança passa a internalizar a fala social, apelando para si própria, e a linguagem adquire uma função intrapessoal além da interpessoal. A relação entre a fala e a ação são dinâmicas e vão ocorrendo durante todo o desenvolvimento da criança.
A relação entre a fala e os instrumentos que são utilizados afeta algumas funções psicológicas como a percepção, as operações sensório-motoras e a atenção, cada uma das quais é parte de um sistema dinâmico de comportamento.
É provável que os problemas com a oralidade refletem, muitas vezes, em outros aspectos. A escrita é um bom exemplo, já que este é, também, um processo complexo.
Para Vigotski: “A capacitação especificamente humana para a linguagem habilita as crianças a providenciarem instrumentos auxiliares na solução de tarefas difíceis, a superar a ação impulsiva, a planejar uma solução para um problema antes de sua execução e a controlar seu próprio comportamento. Signos e palavras constituem para as crianças, primeiro e acima de tudo, um meio de contato social com outras pessoas. As funções cognitivas e comunicativas da linguagem tornam-se, então, a base de uma forma nova e superior de atividade nas crianças, distinguindo-as dos animais” (1998, p.38)
Como a construção social resulta da apropriação, por parte de sujeito, do conhecimento e das produções culturais da sociedade, posso concluir que é assim que a criança internaliza e desenvolve a sua linguagem
Lembrando do tema principal, penso que quando a criança não sabe falar e não existe problema orgânico, é possível que a questão social seja a grande responsável. O que poderia explicar o caso Matheus, já que a sua família não permite que ele haja por si mesmo, ou seja, eles atendem sempre às suas solicitações, transformam-no em “centro de atenções”, não sendo necessário para ele utilizar a fala para ser compreendido, pois a comunicação não-verbal já os satisfazem. Assim, Matheus aos 3 anos, não fala, usa fralda, não come sozinho entre outras coisas, o que revela diferenças no seu desenvolvimento como um todo.
Todavia, para uma afirmação seria necessário encaminhar Matheus para uma avaliação médica e psicológica, de forma que os exames pudessem comprovar se a questão social, neste caso, é realmente a causa para a demora da fala. E, se assim for diagnosticado, a mãe também deverá ser encaminhada para um acompanhamento psicoterápico.
Devido a forma como a fala é utilizada na interação social entre os adultos e a criança, é possível prever se vai ser melhor ou pior o desenvolvimento da linguagem e do pensamento da criança. Para tanto, a criança vai se apropriando do social, internalizando e transformando o seu modo se organizar, planejar e atuar.
Como exemplo posso citar os casos em que as crianças não têm como modelo uma linguagem humana, ou mesmo nas famílias nas quais o grau de miséria, seja ela sócio-econômica e cultural, influem diretamente na criança, por meio do uso pobre da linguagem falada e escrita e até mesmo do uso da linguagem não-verbal.
Em minha análise acredito que o desenvolvimento da linguagem é muito importante para o ser humano, pois é antes de tudo um meio de comunicação, expressão e compreensão e é assim que interagimos socialmente.
Referência Bibliográfica
DAVIS, C e Oliveira, Z. Psicologia na educação. 2º Ed. São Paulo: Cortez, 1994.
JOSÉ, E. A. & COELHO, M. T. Problemas de aprendizagem. 9ª Ed. São Paulo: Ática,1997.
VYGOTSKY, Lev Semenovitch. Pensamento e linguagem. 2ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
VYGOTSKY, Lev Semenovitch .A formação social da mente. 6ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
OLIVEIRA, Marta Kohl. Vygotsky. Aprendizado e desenvolvimento: Um processo sócio-histórico. São Paulo: Scipione, 1997. (Pensamento e ação no magistério).

