É melhor fazer cursos ou brincar
em 17. nov, 2008 por Equipe ECA em Artigos
Meu filho de 4 anos freqüenta a escola pela manhã. Já devo colocá-lo em cursos de idiomas e futebol ou deixá-lo com mais tempo livre?
Hoje, muitos pais estão preocupados em preparar desde cedo suas crianças para um mercado de trabalho altamente competitivo. A crença é de que isso se faz aprimorando competências e de que, quanto mais cedo elas forem oferecidas, mais bem preparados os filhos estarão para o futuro. Nessa corrida para o sucesso, os pequenos acabam precocemente sobrecarregados com tarefas e compromissos. São adultos em miniatura. O risco é que os resultados sejam opostos ao esperado. Em vez de permitir a formação de alguém empreendedor e cheio de iniciativa, uma agenda rígida e o extremo direcionamento dessas atividades – em que sempre há um adulto por perto dizendo o que deve ser feito e como – geram pessoas com dificuldade para lidar com a própria individualidade, acostumadas a obedecer e sem flexibilidade para lidar com os imprevistos.
Até os 6 anos, os pequenos estruturam a base da personalidade. O desenvolvimento afetivo deles nessa etapa norteará o tipo de pessoa em que se transformarão. A partir dos 2 anos, precisarão aprender a superar sentimentos de perda (como a percepção de ser mais um bebê que pode tudo). Também têm desafio de firmar a individualidade e começar a lidar com as regras. A brincadeira é a forma como exercitam essas lições. Mas o papel privilegiado do brincar não implica que alguém em idade pré-escolar deva viver no playground. A total falta de compromissos também é prejudicial, pois submete a criança a realidade artificial, que não contribui para sua formação. O desafio é equilibrar a balança, alternando vivências dirigidas com momentos de espontaneidade.
Faz parte desse equilíbrio buscar uma boa escola educação infantil, capaz de oferecer um leque diversificado de atividades, com aulas de música, d artes, esportes, idiomas, culinária, além de espaço para brincadeiras coletivas e ao ar livre. Tudo isso no horário das aulas e conduzido de forma lúdica. Não se espera, por exemplo, que ela aprenda a ler uma partitura nas aulas de música, mas que desenvolva noções de ritmo, de tempo e de comportamentos adequados.
Paralelamente, em casa, o ideal é que tenha tempo para organizar sozinha as próprias atividades, com a participação ou não dos pais e de amigos da mesma idade. É nessas ocasiões que ela vai soltar a imaginação e a fantasia. A medida que brinca, desenha ou inventa enredos mirabolantes, aumenta sua preensão de como o mundo funciona e da lógica das normas sociais. Essa organização interior é o ganho dessa fase e não há motivo para prejudicá-la em nome do futuro. A partir dos 7 ou 8 anos, seu estará pronto para escolher com você os cursos que lhe interessam. Mas, aí, contando com a segurança e a autonomia de alguém que já compreende, ao menos em parte, o mundo que o rodeia e seu papel nele.
Mônica Cintrão, professora de psicologia do desenvolvimento dos cursos de psicologia e de pedagogia da Unip, em São Paulo.

