A arte pinta o sete na educação
em 14. jul, 2009 por Equipe ECA em Artigos
por Flávio Soares – Diretor da Fólio Comunicação
Mãos sujas de tinta (ás vezes não só as mãos mas o corpo todo), máscaras, fantasias, pés descalços, barro entre os dedos e música… Quem está pensando nas aulas de artes acertou. Na maioria das escolas, a aula de artes é um espaço e um tempo de quebra da rotina dos alunos.
Ao entrarem nas oficinas de artes as crianças se deparam com uma experimentação quase ilimitada. Manuseando diversos materiais e vivenciando várias formas de expressão, ficam frente a frente com a criação de linguagens que remontam as origens do homem, e que até hoje nos emociona e nos faz refletir.
O processo artístico começa no “caótico” movimento de misturar-se com a matéria, tomando forma pouco a pouco à medida que o aluno vê seu emocional se cristalizando em “saberes”. Saberes quase sempre à margem das teorizações, mas concretos como a escultura feita do a partir do barro mole, da música que sai de um batuque com panelas e a rima que flui inspirada no azul do céu.
Rose dos Santos, Sílvia e André Cortês, arte educadores e tarimbados “oficineiros”, nos contam um pouco da presença da arte na educação: “Você pode educar através da arte. A arte não precisa ser um fim… Ela pode ser um meio, ela deve ser um meio. Quanto mais envolvido com a música, mais facilidade para a Matemática você vai ter; quanto mais envolvido com a contação de história, mais abertura você vai ter para Comunicação e História. A percepção tátil está na Geografia quando você olha um relevo e sente aquela textura nas mãos, no corpo… É uma outra relação”, afirma Sílvia apoiada por seus outros colegas de oficina.
Na visão dos três educadores, a arte traz uma “desconstrução”, que dentro do universo escolar vai mexer fundo com todas as informações que cada indivíduo (aluno) capta no seu processo formal de aprendizado.
“O sistema de educação forma uma pessoa que acredita que primeiro ela pensa e depois ela faz. Primeiro ela vai ter uma ideia e depois ela vai executar. Todo trabalho de criação funciona de forma inversa. Você tem que ir fazendo aos poucos e o próprio fazer é que gera as possibilidades da idéia”, diz André.
A arte entra para ajudar as crianças a “digerir” com mais vagar e tranqüilidade as informações (principalmente imagéticas) as quais elas são expostas e forma tão veloz no mundo de hoje.
“Um dos objetivos do trabalho da oficina é permitir que a criança se concentre nela mesma para criar caminhos”, afirma André. E os três são unânimes em afirmar a importância do educador nessa hora.
“Se uma história não é boa para mim não consigo fazer com que ela seja agradável para os alunos”, exemplifica Rose.
Para os “oficineiros”, mais importante que trabalhar uma linguagem com os alunos é poder viabilizar projetos em que a nossa cultura, a natureza e o envolvimento do grupo sejam as verdadeiras matérias-primas da criação.
Envolvimento parece ser mesmo a palavra-chave para esses profissionais que tiveram sua entrada na educação a partir de um mergulho pessoal na arte. Silvia abandonou a química e Rose largou um emprego numa multinacional pelo estudo e a prática artística. André, que gostava de desenho e de matemática, optou por desenho industrial, mas o que o seduziu mesmo foram as possibilidades de “construção” com a cultura popular. Este mergulho nas artes levou os três para a praia da educação. Um lugar que poucos se atrevem a trilhar.
Em nossa sociedade a imagem do artista tem sido muito estigmatizada. Ao mesmo tempo em que a criatividade é elogiada e reconhecida, adjetivos que vão de excêntrico, passando por sensível até maldito, estão relacionados ao universo das artes e seus “militantes”. Isso serviu para afastar ainda mais a arte das outras atividades humanas.
A escola também contribuiu nesse processo. O ensino das artes nas instituições educativas ficou sempre equilibrado em uma balança que, ora pendia para o ensino de “habilidades”, ora pesava para o lado de uma “recreação” pouco fundamentada.
Felizmente, nos anos 70, experiências educativas bem sucedidas se tornaram conhecidas justamente por aliar o ensino das artes em seu currículo. Não de forma estanque e fracionada, mas como mola propulsora para o aprendizado. Mesmo assim a aula de artes é, na maioria das escolas, um “corpo estranho”. André vê na abertura pedagógica desse espaço o motivo dessa diferença.
O artista e sua produção têm navegado entre a glória e a marginalidade. Gênios das artes são reverenciados no mundo todo, mas quando um jovem escolhe a “profissão de artista” ainda causa, muitas vezes, calafrios nos pais.
Numa sociedade tecnicista e consumista como a nossa, uma atividade que precisa de muito tempo para dar frutos não poderia ser vista mesmo com bons olhos. Principalmente num país como o nosso, onde a cultura e as manifestações artísticas são tão pouco valorizadas.
Rose que deixou uma promissora carreira numa grande empresa para se dedicar à educação artística, afirma que a cobrança sócio-familiar é fator de peso na hora de se optar por uma profissão artística: “Existe um momento da vida em que a sociedade e sua família vão cobrar sim.”
Já André acha que certas escolhas são feitas com o coração e que nestes casos coração não pensa. “Não é que você não tenha escolhido racionalmente, mas é que você não pode fazer de outra forma. Você foi realmente pego por aquela situação e não se vê fazendo outra coisa.”
Em relação às crianças nas oficinas, Sílvia firma que o mais importante não é revelar talentos e “profissionais em potencial”, mas mostrar que a arte serve para olhar o mundo através de uma outra perspectiva. O que fica da aula de artes não é nem a questão de ‘eu tenho habilidade para’. Mas ‘eu tenho uma percepção diferente’. Consigo perceber de uma outra maneira… Isso é fundamental nas escolas. É você poder trabalhar a matemática com uma outra visão, trabalhar a História com um outro contexto, com uma outra riqueza, aquela que você traz dentro de si e que te diferencia.”
Para estes experientes arte-educadores o que se ensina e o que se aprende têm de fazer sentido. Não pode haver arte ou qualquer outro conhecimento que não esteja intimamente ligado ao ser e ao meio em que vive. Aí é que reside a consciência, a formação e a prática do mestre. Ensinar é poder dar ao aluno bases para ele se conhecer e em se conhecendo poder estabelecer relações, formular conceitos, experimentar e assimilar experiências. “A relação com a sua própria natureza e com o ambiente é uma coisa muito forte que procuramos passar nas oficinas. Até porque para construir outra realidade – e arte tem essa pretensão – é preciso sempre estabelecer uma relação melhor com as coisas, e arte nunca está satisfeita”, explica André.
Teorias e discursos à parte, o que fundamenta mesmo estes três educadores é ver as crianças “colocando a mão na massa”, criando, vestindo fantasias, brilhando os olhinhos a cada ponto de uma boa história, inventando mundos, colorindo versos, pintando muros, vivendo personagens, fazendo melodias, modelando o barro, construindo coisas, projetando sonhos, realizando sentimentos…
E por aí vai. Aliás, não começamos esse artigo falando de mãos sujas?

